S. Vicente e a História de Portugal
Hoje é dia de S. Vicente (séc III-IV), diácono e mártir. É o mais célebre dos mártires hispânicos, o único
que se encontra incorporado na liturgia da Igreja Católica. O seu dia
celebra-se a 22 de janeiro.
Desde muito cedo foi objeto de um culto amplamente
difundido. Já o grande poeta Paulino de Nola, que viveu na segunda metade do
século IV e na primeira do século V, lhe atribuía o mesmo estatuto que o de S.
Ambrósio em Itália, ou o de S. Martinho de Tours na Gália. O seu contemporâneo
Prudêncio dedica-lhe um longo poema, além de largo excerto noutro hino a
propósito da cidade natal do mártir, Saragoça. Nos primeiros anos do século V,
por volta de 410-412, Agostinho assim dizia em Cartago num dos sermões compostos
para a missa da festa do mártir (Sermo 276, PL 38, 1257):
Qual é hoje a região, qual a província, até onde quer que
se estenda tanto o império romano como o nome de Cristo, que não rejubile por
celebrar o dia consagrado a Vicente?
Segundo a tradição hagiográfica, os acontecimentos
ter-se-iam passado na sequência de uma série de decretos dos imperadores
Diocleciano e Maximiano, emitidos nos anos 303 e 304, que intentavam reprimir o
culto cristão por todo o império. Vicente seria diácono em Saragoça, quando é
preso por um governador de quem não temos qualquer outra referência e cuja
existência é muito problemática, de nome Daciano. Recusando revelar o sítio dos
livros de culto e abjurar, como ordenava o decreto imperial, é levado para
Valência (episódio singular, pois Saragoça e Valência pertenciam a províncias
distintas, uma à Tarraconense, a outra à Cartaginense, cada uma com o seu
próprio governador). Das sequelas do interrogatório sob tortura a que foi
submetido, faleceu a 22 de janeiro do ano 304.
Após a morte, a hagiografia deixou-nos acontecimentos
miraculosos, como o episódio do corvo e o do regresso do corpo a terra, após
ter sido lançado ao mar. Poucos anos depois, a partir de 313, no tempo do
imperador Constantino, constrói-se um sepulcro martirial em Valência, que mais
tarde daria lugar uma basílica extramuros, onde o corpo era venerado pelos
devotos.

O culto difundiu-se rapidamente. Corroborando os textos
hagiográficos, Valência assumiu-se desde logo como sua sede privilegiada. Aqui
ficava a igreja que acolhia o corpo do mártir, citada por Prudêncio e pela
Paixão traduzida mais adiante. Além disso, uma inscrição transmitida por um
manuscrito do século IX indica que o bispo Justiniano (527-548), membro de uma
família de ilustres literatos e eclesiásticos, além de muito devoto do santo,
terá deixado os seus bens em testamento a um mosteiro dedicado a S. Vicente,
que a tradição identifica hoje com San Vicente de la Roqueta.
O outro local importante era Saragoça, onde Vicente fora
diácono e onde o seu martírio começara. Já em finais do século IV e inícios do
século V, o poeta Prudêncio refere o culto que aí se desenvolvia, aludindo a
umas relíquias (fala de algum objeto com o sangue do mártir). Em 541, durante o
cerco de Childeberto, rei da Nêustria, Saragoça teria sido salva pela
intervenção miraculosa da túnica do mártir, em episódio mais adiante referido.
Na primeira metade do século VII, o poeta Eugénio de Toledo dedica um epigrama
a uma igreja do santo, aludindo ao sangue e à túnica, túnica que reaparece numa
oração da missa composta na mesma altura. Eugénio foi, de resto, arcediago
desta igreja.
Além de Valência e Saragoça, cidades indissociáveis da
figura de S. Vicente, o culto cedo se estendeu a outras cidades da Hispânia. Em
Sevilha, já antes de 428, quando os Vândalos invadem a cidade, a catedral onde
Isidoro se recolheu na véspera de morrer estaria dedicada a S. Vicente. A
catedral de Córdova também estaria sob a invocação do mártir em período
anterior às invasões muçulmanas.
A epigrafia documenta-nos o desenvolvimento do culto em
época recuada. Temos conhecimento, talvez no século V, de uma igreja em Toledo.
No século VI, há notícia de três igrejas dedicadas ao mártir: uma em Nativola,
Granada (consagrada em 594), outra em Cehegín na província de Múrcia, e uma
terceira em Loja, perto de Córdova. No século VII, no ano 644, consagra-se um
templo em Vejer de la Miel, perto de Cádis. Também o calendário epigráfico de
Carmona, porventura do século VI ou VII, assinala o dia do santo. No século
VII, o impulso dado ao culto é atestado pela significativa produção litúrgica
(um hino, orações, uma missa, sermões), alguma da qual percorreremos nas
páginas seguintes.
E desde o século VIII até ao século X, a proliferação de
igrejas dedicadas a S. Vicente é notável por toda a Hispânia: cite-se apenas
Oviedo, onde em 761 são depositadas umas relíquias trazidas de Valência.
Em África, sabemos que, por inícios do século V, o dia de S.
Vicente era celebrado com grande solenidade. O ilustre Agostinho redigiu, entre
410 e 412, quatro sermões para este dia, um outro com larga referência, e, se
acaso for do bispo de Hipona, um sexto entre 410 e 419 ("Serm. 4 De Iacob
et Iesau"). Em quatro deles indica expressamente que tinham acabado de
escutar a leitura da Paixão do mártir. No século VI, o seu culto está atestado
por um calendário litúrgico de Cartago, escrito entre 506 e 535, por alguns
sermões anónimos e pela epigrafia.
Na Gália e Aquitânia, o culto remonta, pelo menos, a meados
do século V. (...) O século IX assiste a uma notável expansão do culto de S.
Vicente (...). Mas, de longe, a igreja mais famosa na Gália é a de Paris. Em
541, em campanha contra o rei visigodo Têudis, o rei Childeberto da Nêustria
sitia Saragoça. A túnica de Vicente, mencionada por Eugénio de Toledo e na
missa reelaborada no século VI na Hispânia, então reino dos Visigodos, foi
levada em procissão em redor das muralhas e a cidade foi salva. Childeberto
pediu então ao bispo da cidade relíquias do mártir. Este concedeu-lhe a estola (espécie
de manto que se usava sobre a túnica). No regresso, Childeberto edificou em
Paris uma basílica dedicada a S. Vicente onde depositou a relíquia, tendo sido
consagrada em 558 pelo bispo de Paris, Germano. Este foi o panteão dos
primeiros reis merovíngios. Nos finais do século X e inícios do século XI, a
igreja foi reconstruída. Em 1163, a igreja foi dedicada de novo a S. Germano,
sendo desde então conhecida como Saint-Germain-des-Prés. Em Itália, o culto
também se desenvolveu desde muito cedo.
Por estas brevíssimas notas, é evidente a espantosa difusão
que o culto a S. Vicente alcançou nos séculos anteriores à nossa nacionalidade.
Ora, sucede que os inícios do reino de Portugal, e, em particular, a cidade de
Lisboa, estão indissociavelmente ligados ao diácono de Saragoça.
Já antes da conquista de Lisboa por D. A fonso Henriques,
temos notícia da existência de basílicas dedicadas ao mártir no que será mais
tarde território português. Um documento do ano 830 (seguido de dois outros de
cerca de 90S e do ano 911) refere uma igreja dedicada a S. Vicente em Infias,
Braga, que poderá remontar ao século VII. Em 972, documentação referente ao
mosteiro do Lorvão menciona uma igreja nas imediações de Coimbra; documentos
dos anos 970 e 973 aludem a uma Porta de S. Vicente, nos limites das terras de
um mosteiro designado de Bacalusti, nas margens do rio Douro; em
978 e 1002 refere-se uma igreja de S. Vicente de Pararia.
Antes de 1094, quando passa para a posse do bispo de
Coimbra, o mosteiro da Vacariça, na região da Mealhada, associava a invocação a
S. Vicente à de S. Salvador, e já antes de meados do século XI, o mosteiro de
Guimarães tinha o mártir de Valência como um dos seus titulares secundários. O
censual de Braga, escrito entre 108S e 1091, do qual se conserva apenas a parte
respeitante à região entre o Lima e o Ave, refere oito igrejas dedicadas a S.
Vicente, e mais duas em que o mártir se associa a outro patrono. Enfim, a
documentação medieval identifica noutras regiões outras igrejas sob a invocação
do mártir que podem remontar a período anterior a meados do século XII.
Em Lisboa, a mais antiga atestação remonta ao tempo do nosso
primeiro rei. Ao sitiar Lisboa em 1147, D. Afonso Henriques fizera o voto de,
se a cidade lhe caísse nas mãos e os infiéis fossem aniquilados, mandar
construir dois mosteiros junto a dois cemitérios que se revelavam necessários
para sepultar os cruzados que sucumbiam junto às muralhas do castelo. Uma das
igrejas foi erigida junto ao cemitério dos teutónicos em 1148 sob a invocação
de S. Vicente. Não sabemos se já ali haveria um culto mais antigo, se era uma
criação expressa. Tendo o rei dado a escolher ao bispo D. Gilberto e aos
cónegos uma das duas igrejas, estes optaram por Santa Maria dos Mártires (a
atual Sé de Lisboa), junto ao cemitério dos ingleses. A igreja de S. Vicente
ficou então na posse do rei, e foi dirigida por presbíteros ingleses, até D.
Afonso Henriques nomear o primeiro prior, Gualter, de origem flamenga, a que se
seguiram cónegos regrantes da confiança do rei. Isto é relatado na
Notícia da fundação do mosteiro de S. Vicente, redigida em 1188.
Mas o que liga intrinsecamente Lisboa a S. Vicente é a
chegada das suas relíquias ocorrida em 1173. Conta a Crónica de
Al-Razi, composta no século X, que conhecemos por intermédio de uma
tradução portuguesa do século XIV feita a mando de D. Dinis, que, durante a
perseguição de Abderramán I (756-788), o corpo de S. Vicente fora levado de
Valência, onde estaria na antiga igreja sob sua invocação, para o Promontório
Sacro, hoje Cabo de S. Vicente, em Sagres. O caráter sagrado do local já na Antiguidade
era assinalado, desde, pelo menos, o geógrafo Estrabão, que viveu nos séculos I
a. C. e I d. c., Plínio (século I d. C.) e outros autores do mundo clássico. A
História PseudoIsidoriana e o geógrafo Al-Idrisi em obra de meados
do século XII afirmavam que ali existiria uma "igreja dos corvos".
Porventura, desde época recuada, ali poderia ter havido uma capela. Esta
tradição sustentava a pretensão de Lisboa, pretensão essa apoiada nos séculos
XVI e XVIII por Ambrosio de Morales e Henrique Flórez: seria aqui que estavam
efetivamente as relíquias do santo.
Diga-se que Lisboa não era a única cidade a presumir ter o
corpo do mártir. Aimoin de Saint-Gerrnain-des-Prés conta que o corpo do mártir
fora trazido, em 863, de Valência para Castres, uma cidade no sul de França. No
século XI, um braço num relicário fora levado de Valência para Bari. Também San
Vincenzo ai Volturno (desde inícios do século VIII), e depois Cortona e Metz,
Benevento e Monembasia (no sul da Grécia), reclamavam deter o corpo do santo.
Por outro lado, o século XII é um período de intenso "achamento" de
corpos santos e relíquias, geralmente com o objetivo de promover a peregrinação
e ampliar o prestígio e o estatuto das respetivas igrejas. Relembre-se apenas,
no início do século, Braga e Compostela, que se dedicaram à disputa da posse de
corpos santos.
Neste contexto, em 1173, de acordo com um texto de finais do
século XII ou do século XIII da autoria de Estêvão, chantre da catedral de
Lisboa, e que segundo Aires Nascimento, corresponde ao momento da instauração
do culto na diocese de Lisboa, um anónimo alerta para a existência do corpo do
mártir na ponta do Algarve, em mãos dos infiéis. No dia 15 de setembro, as
relíquias chegam a Lisboa, ficando na igreja de Santa Justa, antes de se recolherem
no dia seguinte na Sé, com a oposição da igreja real de S. Vicente. O mártir de
Valência tornou-se assim o padroeiro de Lisboa, sendo o dia da chegada do seu
corpo celebrado na liturgia e em animadas festas populares (15 de setembro). E
este dia, que no século XIX mudou para 16 de setembro, foi comemorado até
recentemente.
A memória de S. Vicente, padroeiro principal do patriarcado
de Lisboa e da dioces.
Paulo Farmhouse Alberto
In Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, I, Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade
de Lisboa.